O Policial e sua vida de estresse e adrenalina

Ás vezes me pergunto, até que ponto vale a pena ser policial no Brasil. Não conheço a realidade das polícias de outros países, porém sei que tem muitos países onde a renda per capita e o Produto Interno Bruto é bem menor que o do Brasil, e com certeza as suas forças públicas são de qualidade inferior a do nosso país. Porém nós poderíamos ter uma segurança pública melhor, ou seja, melhor remunerada, melhor treinada e melhor estruturada. Ao longo de 27 anos, trabalhando como policial me deparei com as mais diversas situações dramáticas, hilárias, emocionantes, enfim, tudo o que se possa imaginar no universo das ocorrências policiais. Fatos estes que dariam para escrever um livro. Nós vivemos mais de 20 anos sob uma "ditadura militar", e eu entrei para a polícia, durante o mandato do General Figueiredo, que durante uma visita ao estado de SC, mais exatamente em Balneário Camboriú, ao fazer o isolamento da multidão que o cercava próximo à área do Hotel Marambaia onde iria se hospedar, o mesmo bateu com a mão no meu peito e disse "Agüenta firme soldado". Naquela época havia uma frase que era dita, como sendo originária de algum militar de alta patente, que era a seguinte, “Eu prendo, eu mato, eu arrebento", isto é claro ficou impregnado na mente de muitos militares e policiais. No passado, em vários países, assim como no Brasil, as forças públicas utilizaram de métodos violentos para desvendar crimes, e muitas vezes para controlar manifestações, e mesmo para a manutenção de poder. Obviamente, ainda de vê alguns episódios de abusos, porém temos que considerar os aspectos históricos deste tipo de comportamento, pois isto foi sendo transmitido ao longo dos anos. A sociedade brasileira está num processo de transformação social, econômica e política, sendo que a democracia em sua essência ainda não está solidificada, pois creio que a partir do momento em que a vontade popular na sua totalidade for respeitada, poderemos ter uma força policial melhor preparada e mais conectada com a vontade popular e os interesses da comunidade. Existem hoje, tramitando no Congresso Nacional, várias Propostas de Emenda Constitucionais, as chamadas PECs, sobre a unificação e desmilitarização das polícias, assim como outras que contemplam os policiais e bombeiros com um salário mais digno. É necessário que mudemos, pois assim como a sociedade não agüenta mais a violência e o aumento da criminalidade, nós os policiais não suportamos mais o descaso dos governantes e legisladores que parecem insensíveis a condição social e psicológica que nós vivemos. Ganhamos mal, somos discriminados pela maioria da sociedade e por parte da imprensa. Carregamos um estigma de violentos, despreparados, insensíveis, muitas vezes de assassinos, porém a maioria de nós, pelo menos no meu estado, somos bons policiais e honestos na sua maioria. Claro que precisamos melhorar e muito, assim como a maioria dos profissionais nas mais diversas carreiras. Uma vez em um programa de televisão, o apresentador Wagner Montes, disse algo muito relevante, “o político não é um extraterrestre”, eu estendo esta afirmativa a classe da segurança pública, “ os policiais não são extraterrestres", ou seja, todos nós viemos do seio da sociedade. Se quisermos ter melhores, políticos, policiais, médicos, governantes; todos temos que melhorar como pessoas, cidadãos. Obviamente, a discussão sobre segurança pública é muito mais profunda e merece um debate muito mais amplo sobre o tema. Porém gostaria de colocar neste pequeno resumo, que nós policiais, pelo menos os mais sérios, temos um profundo interesse de contribuir com uma sociedade mais justa, mais segura e pacífica, ao mesmo tempo que temos sangue nas veias e nos deparamos todos os dias com as mais diversas situações. Pois ao mesmo tempo que temos que ser educados com os cidadãos honestos, temos que ter firmeza com os criminosos violentos. Desta forma, as vezes temos que ter o discernimento e o chamado tirocínio policial para saber identificar em um veículo ou em uma situação extrema, se aquela pessoa que iremos abordar ou identificar é ou não um criminoso ou potencial criminoso. E muitas vezes as pessoas comuns se acham no direito de questionar nossas atitudes, mesmo aquelas que estão embasadas estritamente nas leis vigentes. Espero que todos nós, sociedade, policiais, políticos, possamos fazer uma melhor polícia, uma melhor sociedade, para dar a nossos descendentes melhores perspectivas de um futuro esperançoso.
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